quarta-feira, 28 de julho de 2010

A menina de vestido rosa-chá













Era uma segunda-feira, quando fui chamada por telefone para fazer uma visita samaritana. A filha da dona da casa estava aflita, contava que havia muitas brigas e desentendimentos entre os familiares.

Nessas visitas samaritanas todos os familiares saem da casa, enquanto as orações são feitas em cada cômodo com defumador. Todas as janelas são fechadas, todas as portas são fechadas depois de receberem orações em cada canto. Este é um trabalho de caridade e fé.

Era uma casa grande de dois andares, com uma escada e um mezanino na sala. Comecei pelos cômodos da parte de baixo, com as mesmas orações que sempre faço enquanto vou acendendo cada defumador. A fumaça vai impregnando cada espaço, retirando os miasmas envelhecidos pelo tempo. Imagens fragmentadas de momentos que ficaram suspensas na dimensão etérea da vida sobrenatural.

Até então não havia sentido, visto ou ouvido nada. Então subi a escada que ligava o andar de cima, onde estavam os quartos, banheiros e um corredor. Do início do corredor, vi que o espelho do banheiro social estava trincado há muito tempo, por causa das infiltrações de vapor, que vão retirando o brilho do espelho. Foi quando eu ouvi um choro de criança. Olhei para o canto direito do corredor, diante do espelho trincado, havia uma menina sentada com um vestido rosa chá, segurava uma boneca de porcelana. Ela parecia ter uns cinco anos, cabelo castanho todo cacheado e os olhos tristes. Estendi a mão em sua direção e ela olhou pra mim, dizendo:

- Eles foram embora e me deixaram aqui! Eu não quero ir embora! Estou esperando por eles! – Senti sua tristeza e respondi:

- Venha comigo, eu levarei você até eles. (Ela me acompanhou e permaneceu no meu olhar).

Terminei minhas orações em cada cômodo da parte de cima, deixando a casa totalmente defumada até sair pela mesma porta que eu entrei. Recomendei aos donos que esperassem dez minutos, antes de entrar na casa e abrir todas as portas e janelas. Pedi também para a dona da casa procurar saber quem construiu aquela casa e a história dos que viveram ali. Aconselhei aos familiares que permanecessem em oração, encontrando a paz de espírito.

Depois de terminar todo o trabalho samaritano, procurei por alguns participantes da Federação Espírita para fazer um círculo de oração e orientação para encaminhar a menina de vestido rosa chá. Segundo os mentores espirituais ela encontrou seus familiares.

Uma semana se passou e a filha da dona da casa me procurou. Ela me contou que o homem que construiu aquela casa tinha uma netinha de 5 anos e que ela veio a falecer por problemas de saúde. A família passou por momentos tristes e preferiram procurar outro lugar para morar. Esse fato aconteceu na década de 50. A menina permaneceu na casa desde então e foi socorrida pelo trabalho samaritano de caridade e fé.

Helen De Rose

* Lançamento 10/08/2010 - "Ab-absurdo" / Contos - Edição 2010



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Canção de Plenitude













Momento a momento as partes vão se unindo
A visão vai se abrindo para a percepção interior
Revelando o amor que do coração vai fluindo
Nos lábios sorrindo presenciando a magia do alvor

Envolvendo de calor o encantamento da plenitude
Presente na atitude de cada essência consciente
Da totalidade da mente em profunda completude
Mesmo que tudo mude de forma surpreendente

Estar ciente de dar um passo de cada vez na vida
Deixando cada esquina na saudade de um passado
Muitas vezes relembrado por uma canção de despedida
Memorizada na partida de um momento eternizado

Nosso aprendizado está em cada fim, em novos começos
Mesmo que os tropeços cantem para nos fazer acordar
A sorte vem nos salvar dos abismos e dos arremessos
Nos destinos espessos que nosso olhar possa encontrar

Ah! Como eu quero estar! Com a alma plena de felicidade!
Nascendo da sagacidade de um sublime delírio da criação
Nesta constelação que ilumina os olhos cansados da humanidade
Revelando a irmandade que nos leva às veredas da perfeição

Helen De Rose

*Publicado na Edição 2010 da Antologia "Plenitude - Versos de Encantamento" -
Lançamento 10/08/2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Sabor da Inocência









É todo masculino seu cheiro viril de amante
Perfumando meus desejos guardados no timo
No desabrochar da inocência em cada instante
Revelo-te meu doce sabor quando me aproximo

Dou-te de beber nos teus lábios, meu instinto
Com o sabor dessa nascente que em ti satisfaz
Enfeitando de suaves corais e aromas de absinto
O ventre desta gruta virgem por um instante fugaz

É toda feminina minha pele rósea, meu doce humo
Diante dos teus olhos silenciosos derramo-me sentindo
O desejo da tua boca sorvendo minha fruta, meu sumo
Entre minhas coxas o mundo gira e o céu vai se abrindo

Ensino-te os caminhos do meu prazer mais profundo
Por cada poro que passeias com tua língua e espume
Tua saliva, depois a brisa do teu sopro a arrepiar o fecundo
Corpo que minha alma e o meu coração pulsando resume

Helen De Rose


*Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 66 - Julho / 2010 - CBJE - Rio de Janeiro.
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