segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Viúva Negra


A noite nasce depois do meio dia, caminhando pela tarde, até encontrar o crepúsculo na despedida do Sol, preparando-se para receber a Lua do outro lado do horizonte, enquanto as estrelas vão surgindo como pingos brilhantes no véu negro do céu, enfeitando a passagem de mais uma lunação.

Neste instante, uma mulher ainda dorme nua, com sua pele aveludada de brancura mergulhada nos lençóis macios do seu leito solitário. O silêncio ecoa por todo seu aposento, até quando uma coruja branca de olhos grandes e amarelos, pousa num centenário carvalho, ao lado da janela do seu quarto e começa a cantar seu presságio de mau agouro. O canto da coruja anuncia a chegada da noite, enquanto que a Lua Cheia, vagarosamente, vai prateando a escuridão do quarto.

De repente, seu corpo começa a sentir sua presença, espreguiçando preguiçosamente, enquanto seus olhos vão despertando do sono em outro mundo. Seus olhos se abrem, acompanhados por um suspiro sobre a presença da vida, num respirar constante, no seu dia que amanhece na noite, com o nascer da Lua, anunciada pelo canto da coruja branca de olhos grandes e amarelos - como se o Sol estivesse vivendo no seu olhar. Esta misteriosa mulher levanta-se da cama e aproxima-se da janela, enfeitada pela dança suave da leveza das cortinas, enquanto são tocadas pela brisa noturna. Ela olha para a Lua Cheia, sente a luz prateada penetrar sua pele cálida, sente a brisa fresca beijar seus lábios rosados, enquanto uma lágrima fria revela um sentimento de profunda tristeza.

Depois de alguns minutos ali, olhando a noite da sua janela, ela prepara seu banho numa banheira de porcelana, com água morna e sais perfumados, joga algumas pétalas de jasmim na água, acende uma vela de canela e um incenso de alecrim, mergulhando seu corpo neste ritual. O tempo do seu banho é o tempo em que a chama da vela permanece queimando seu destino, num mar de cera, choro ardente que transborda na chama viva da vela e que vai morrendo a cada brilho. A luz da vela acesa deflagra a presença etérea do fantasma do homem que esta mulher amou. Enquanto ela se banha, ele observa cada detalhe do seu corpo, sentindo tristeza por estar ali presente, tão perto e não poder tocá-la mais. Desde pequeno ele temia as sombras do amor, como se fosse um sagrado medo do seu coração, pois acreditava que cada encontro tinha uma despedida e não queria sentir o exílio da saudade. Talvez o seu medo, fosse sua intuição prevendo o seu destino, já traçado pelas mãos da existência.

Ah! Se todos pudessem ver o mundo das manifestações sutis! Saberiam que não existem separações definitivas e, sim, temporárias.

O pavio da vela mergulha na cera e a chama desaparece, como também o fantasma daquele que ela amou. No silêncio daquela noite de primavera, ela se veste de luto, com um véu negro cobrindo sua face pálida, prepara um cálice de veneno e toma tudo até o fim. Deita-se na cama, segurando uma rosa vermelha, como se fosse um símbolo da sua paixão, fecha os olhos e espera a morte possuir seu corpo, para poder sair pelo canal vital da eternidade.

Apenas o silêncio sobreviveu....

Quero apenas que me mostre como são os teus olhos ao crepúsculo, para que os possa imaginar na minha alma.

Helen De Rose



6 comentários:

  1. Maravilhoso trecho de teu livro, que serve de amostra linda!beijos,tudo de bom,chica

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  2. Minha querida
    Uma beleza de ler tão belo texto, adorei.

    Beijinhos
    Sonhadora

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  3. Novamente rendido à enorme fluência de seus textos que sempre confundo com poesia...
    Escreve como quem respira...diria que tem em sua mente o privilégio dos maiores génios literários da língua portuguesa...Já tem um lugar no seio dos maiores poetas vivos e dos outros também....Um dia os manuais de literatura vão fazer da Helen de Rose, um modelo a seguir...será estudada pelos filhos de nossos filhos que já a admiram.

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  4. Este belo texto, mostra calramente todo o teu talento, Helen, e a versatilidade expressiva da
    tua escrita.
    Leio-te sempre com prazer.
    Beijo, amiga,
    Vóny Ferreira

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  5. Hummm...gostei daqui...;)
    Um texto maravilhoso com um final fantastico..."Quero apenas que me mostre como são os teus olhos ao crepúsculo, para que os possa imaginar na minha alma."
    Beijo d'anjo

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  6. Amei muito riqueza em seu trabalho.... Parabéns pelos textos... Felicidades e sucesso sempre!!!!
    Bjs

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Agradeço sua atenção.
Bastante proteção em seus caminhos.
Sucesso sempre.
Helen De Rose

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