segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Olhai os Mananciais dos Sonhos










Os meus pensamentos me levaram nesta viagem sem destino...
Caminhos erguidos por eucaliptos envolvidos por brumas, anunciando o crepuscular vespertino, num extremo peninsular do ocidente.
Encontrei um jardim onde três ninfas, guardiãs das fronteiras entre o dia e a noite, brincavam de pintar o céu, com a luz avermelhada da tarde, colorindo a Deusa do seu Esplendor num horizonte perdido.
Adiante, vi uma construção antiga, abandonada pelo tempo, com várias janelas e grades enferrujadas, com limbos tomando conta da pintura umedecida pela garoa fina, que começava a cair nessa tarde de outono, preguiçosamente fria pelo vento, que ia varrendo as folhas caídas nos gramados, formando redemoinhos vivos. De repente, uma luz surgiu de uma lamparina, iluminando o rosto de um homem solitário, olhando atentamente nos meus olhos, através de uma das janelas da frente da construção antiga. Seu vulto era de um homem alto, de porte largo e cabeça raspada.
Antes de subir as escadas da porta de entrada, olhei para meu lado direito e vi um largo gramado verde, onde um cavalo branco, selvagem, corria livremente por todos os lados. Voltei meus olhos para o rosto do homem e vi lágrimas correndo em sua face. Senti um calafrio. Apontei meu dedo indicador para a porta e ele sumiu da janela.
Em segundos, a porta se abriu e o homem segurando a lamparina numa das mãos, tremia, demonstrando uma misteriosa emoção. No bolso da sua camisa, havia uma foto, puxei para ver, e era de uma mulher grávida. Ele não esboçava nenhuma palavra, apenas olhava cada gesto meu. Com o vento, uma porta dos fundos começou bater, então ele se apressou em fechá-la, percorrendo um corredor enorme, com o piso de tijolos e com portas dos dois lados. Segui seus passos até o fim do corredor, quando a porta se abriu com o vento, vi um quintal repleto de lápides, túmulos antigos, onde várias pessoas foram enterradas ali. O homem olhou nos meus olhos com receio e segurou meu braço, impedindo que eu fosse até lá. Neste momento, três Deusas guardiãs do éden e do mundo subterrâneo surgiram de um pomar de árvores mágicas de onde nasciam Pomos de Ouro. Elas iam limpando e enfeitando as lápidas com maçãs e flores místicas azuis. Depois correram para um lago, atrás do pomar e, mergulharam nuas, desaparecendo nas águas turvas, no meio das brumas silenciosas. Por alguns minutos, prendi minha respiração, para tomar coragem...Voltei meus olhos para trás e ofereci a mão para o homem misterioso. Então, seguimos em direção a primeira lápide de mármore. Nesse instante, olhei para minhas vestes e elas se transformaram no meu corpo. Surgiu uma saia longa negra e um corselet vermelho, meus cabelos ficaram mais longos, como se eu estivesse atravessando uma ponte entre o presente e o passado. Diante de nós, uma estátua de anjo Serafim surgiu em frente de uma cruz de madeira e do seu lado repousava o cadáver de uma mulher, coberta por flores de jasmins e borboletas coloridas, envolvida por uma luz de matizes azuis, fosforescendo sua camisola branca.
O homem ajoelhou-se em prantos diante dela e pronunciou algumas palavras:

“- Minha Amada Imortal!
Quanta saudade eu sinto em meu coração!
Eu pensei que nunca mais fosse lhe ver!
Diante do silêncio do seu corpo,
Eu sou o Sol sem a luz,
O vento sem as folhas,
A água sem a nascente,
A terra sem a semente,
Um barco perdido em alto mar...”

E,
Presenciando este encontro solene,
Sentei sobre a lápide de mármore
E chorei...
Pois, para minha surpresa, aquela mulher trazia em seu rosto, os traços da minha face.

Helen De Rose
* Antologia lançada em 21/04/2015 - 1* Coletânea de Contos - Academia Luminescência Brasileira. Adquira o livro: http://clubedeautores.com.br/book/185294--Academia_Luminescencia_Brasileira#.VkCiULerTIV


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Anjos no jardim da Paz

Marli Zaccariotto
Minha amiga
Deixa no meu coração seu sorriso
De momentos vividos nesta jornada
Mensagens que me escrevia
Enfeitadas com seus desenhos
Feitos com sua mão delicada
Anjos alados a brincar
Nos jardins de flores
Rodeadas por borboletas livres
Que de repente saíam do papel
E vinham pousar nos meus cabelos
Quando terminava de ler
As mensagens que saíam
Do seu bondoso coração.

Nesta despedida momentânea
Levamos sua morada corpórea
Para descansar debaixo
De um ipê cor-de-rosa
Que de tão generoso
Ao balançar com o vento
Deixava cair flor por flor
No teu leito terreno
E neste momento
Eu chorei...
Lembrei da nossa amizade
Da nossa doce santidade
Ao desejar sempre o bem
Neste afeto gratuito
Do nosso amor amigo.

Para você 
Minha amiga
Que sempre
Desenhou jardins pra mim
Morada dos anjos
Repletos de borboletas
Livres a voar
Hoje foi seu dia
De receber o seu
Jardim da paz
Enfeitado por flores
Para receber seu voo
De liberdade
Como uma livre
Borboleta
Rodeada por anjos.

Senti você
Despedir-se
De mim
Na brisa 
Que refrescava
Minhas lágrimas...

Esteja em paz
Agora e sempre
Até o dia
Do nosso 
Reencontro.

Helen De Rose.

*Poema dedicado para esta amiga muito querida.
Está no meu primeiro livro.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bulevar dos Oitis

Em Araraquara/SP


Existe um lugar encantado na morada do sol
onde as aves migratórias que se alimentam do mel
buscam todos os dias para glorificarem o arrebol
enquanto o verde das folhas cobrem todo o céu

Um lugar onde as almas das árvores se entrelaçam
com seus longos ramos em posição de louvor
homenageando as almas que um dia viveram e lutaram.
Foram voluntárias de uma guerra, guerreiras da dor

Um lugar onde minha alma sente a sutil presença
de todas essas almas entrelaçadas e abraçadas
enquanto meus pés caminham na paz da sua herança
sob as sombras frescas que deixam sobre as longas calçadas

Um lugar onde meus olhos encantados olham para o alto
e meus ouvidos ouvem uma canção de louvor que dali emana.
Uma perplexidade toma conta da mente que fica em sobressalto
aguardando que apareça repentinamente uma figura humana

Um lugar onde meu coração deseja ficar e morar eternamente
sentar no banco de madeira da calçada e esperar as estações do ano
ver no outono as folhas se soltando dos Oitis, levitando docemente
enquanto seus ramos louvam ao céu num simples gesto humano

Existe um lugar chamado 'Bulevar dos Oitis' na morada do sol
e quando olhamos, pela primeira vez, algo acontece em nosso ser
um sentimento de paz nasce deste agradecimento ao homem de prol
lembrando-nos que nossas almas estão unidas à natureza para sobreviver.


Helen De Rose

*Lançado em 20/01/2015 - CBJE - Rio de Janeiro


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